Aclamada como uma gordura ‘saudável’ e amplamente divulgada como uma boa alternativa a outras gorduras em receitas para bebé, temos hoje evidência contrária a estas alegações: o óleo de coco é uma gordura a evitar na alimentação dos mais pequenos, especialmente durante o primeiro ano de vida.

Primeiro, importa clarificar como se criou este mito.

Nos últimos anos foi divulgada como uma gordura de eleição de algumas dietas da moda, como a dieta do paleolítico e a dieta cetogénica. Por um lado, alegaram-se benefícios do seu consumo por se verificar que alguns povos indígenas (da Índia, Filipinas e Polinésia, entre outros) consomem produtos derivados do coco e apresentam baixa prevalência de doença cardiovascular. Mas logo aqui se falha em alguns pressupostos:

  • Existem muitos outros fatores, dentro dos hábitos de vida destes povos, que justificam este menor risco de doença cardiovascular quando comparados com os nossos;
  • Estes povos não usam o coco processado ou sequer óleo de coco, mas a polpa de coco fresco ou o seu sumo, o que retira qualquer credibilidade e sentido a este argumento.

Um outro argumento utilizado a favor do óleo de coco é o facto de conter ácidos gordos de cadeia média. Alguns destes – como o ácido caprílico e cáprico – são rapidamente absorvidos pelo nosso organismo e parecem contribuir para um aumento do colesterol HDL (o dito ‘bom’ colesterol) e para um potencial efeito positivo na saciedade. Contudo, o óleo de coco é constituído maioritariamente por ácido láurico, cujo efeito difere do descrito para o ácido caprílico e cáprico, presentes em muito menor percentagem no óleo de coco. Aliás, os estudos com óleo de coco considerados nas meta-análises anteriormente descritas parecem reduzir os efeitos positivos encontrados. Estes efeitos são por sua vez potenciados ao considerar apenas estudos que avaliaram o consumo de suplementos de ácidos gordos de cadeia média, obtidos pelo processamento de gordura.

Importa olhar criticamente para o que nos diz a evidência científica mais atual.

Se restavam dúvidas quanto aos efeitos do óleo de coco na saúde cardiovascular, uma meta-análise recente concluiu que, quando comparado com o consumo de outras gorduras, o consumo de óleo de coco contribuiu para aumentar significativamente o colesterol LDL (o dito ‘mau colesterol), não contribuindo também para melhorias no peso, glicemia e marcadores inflamatórios.

Perante estes factos, há quem argumente que os resultados não seriam os mesmos considerando óleo de coco biológico ou virgem, obtido a frio. Pois saiba que encontra nestas versões uma distribuição semelhante de ácidos gordos de cadeia média e logo igual contributo para o risco cardiovascular.

Há ainda quem defenda o uso de óleo de coco pela sua resistência a elevadas temperaturas. Este argumento perde força quando comparamos o óleo de coco com o azeite e com o óleo de amendoim, também resistentes a elevadas temperaturas.

Ora, apesar de todos estes factos, o óleo de coco quando apreciado pode fazer parte de um padrão alimentar saudável, se consumido esporadicamente e em pequenas quantidades (não esquecer que se trata de uma gordura, logo tem alto valor calórico). Agora, não faz sentido optar por esta gordura em detrimento de outras, acreditando que se trata de um superalimento. É um mito que, infelizmente, se tem vindo a perpetuar.

Não esquecer que esta escolha é também pouco amiga:

  • Do ambiente, uma vez que o óleo de coco é um alimento importado de outros continentes e que substitui o consumo do azeite, que é um produto nacional.
  • Da carteira, pois é habitualmente mais caro que os seus equivalentes.

E porque não devo incluir óleo de coco na alimentação do bebé no primeiro ano de vida?

No primeiro ano de vida, as gorduras de adição devem ser maioritariamente usadas em cru. Por isso recomendamos que se adicione um fio de azeite em cru ao prato, ao almoço ou jantar. Já vimos que não existe benefício comprovado da substituição do azeite por óleo de coco e que o seu consumo tem até o efeito oposto: um impacto negativo na saúde cardiovascular.

Quanto a gordura para cozinhar:

  • Os fritos são totalmente desaconselhados durante o primeiro ano de vida e, portanto, o argumento da resistência do óleo de coco a elevadas temperaturas perde o sentido.
  • No que toca à utilização deste ingrediente em receitas como bolos, panquecas ou afins, estes não passam a ser ‘saudáveis’ porque contêm óleo de coco. Pelo contrário, esta substituição pode impactar negativamente a saúde cardiovascular do bebé.

Lisa Afonso
Nutricionista Infantil | Investigadora Doutorada na área do Comportamento Alimentar Infantil

Curso de Diversificação Alimentar & Consulta de Nutrição