Antes disso deixem-me falar-vos um pouco sobre o glúten e sobre quando o devemos introduzir na alimentação do nosso bebé.

O glúten é um conjunto de proteínas que está presente no endosperma de cereais como o trigo, a cevada, o centeio e a aveia.

Tendo em conta as recomendações atuais da European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition (ESPGHAN) e da Direção-Geral da Saúde, o glúten deve ser introduzido a partir dos 4 meses e antes dos 7 meses. Ou seja, quando o bebé começa a comer, podemos desde logo escolher ou preparar uma papa ou uma refeição com glúten.

E porquê? Porque estudos recentes indicam (por exemplo este) que bebés que comeram glúten logo a partir do momento em que iniciaram a diversificação alimentar tiveram menos expressão de doença celíaca, anos depois.

Sabemos que muitos profissionais ainda recomendam atrasar a introdução do glúten até aos 6 meses (quando o bebé começa a comer antes disso) e, por este motivo ou por suspeita de reação alérgica ou autoimune ao glúten (doença celíaca), as papas sem glúten são muitas vezes uma opção. 

Mas então, qual a melhor papa sem glúten?

Apresento-vos uma comparação que inclui as papas mais votadas pelos pais no Instagram.

Estas foram as selecionadas:

E esta é a conclusão:

Papas sem glúten

As recomendações foram determinadas com base nos seguintes fatores:

1.Teor de açúcar

  O açúcar presente nas papas de compra é o primeiro fator de determina a qualidade das mesmas. No primeiro grupo de papas (vermelho escuro) temos valores excessivos de açúcar na maioria das papas, provenientes da maltodextrina, das farinhas hidrolisadas e da fruta. É certo que 3 dessas 4 papas são lácteas e, por conterem leite, têm valores de açúcar um pouco superiores. Contudo, o leite não justifica valores tão altos como os encontrados.

2. Presença de aroma a baunilha

Temos hoje evidência científica que indica que o contacto durante os primeiros meses de vida do bebé com determinados sabores, ainda que de forma indireta, pode influenciar as suas preferências alimentares, vários anos após a exposição. Exemplos destes contactos indiretos: os sabores dos alimentos que a mãe come e que o bebé sente através do leite materno ou determinados aromas adicionados ao leite adaptado. Alguns estudos indicaram que a exposição a leite adaptado com aroma a baunilha levou a maior preferência por alimentos processados com este aroma na vida adulta (por exemplo ketchup com aroma a baunilha). Estudou-se também o quanto o aroma influenciava a forma como o bebé consumia o leite adaptado. Por exemplo, num estudo, bebés que consumiam leite adaptado com aroma a baunilha durante 1 minuto, intercalando com leite sem aroma durante outro minuto, bebiam o leite aromatizado de forma mais vigorosa e em maiores volumes. 

Por isso e especialmente entre os 4 e os 6 meses deve haver rigor nos sabores que oferecemos ao bebé e o aroma a baunilha é de evitar.

 

3. Fortificação com ferro

No grupo de papas recomendadas, divido as que são fortificadas com ferro das que não o são.  Habitualmente as papas sem glúten são recomendadas antes dos 6 meses e o reforço do aporte de ferro por suplemento ou por fortificação, de forma a reduzir o risco de ferropenia, só se justifica a partir dos 6 meses. Naturalmente que deve haver um olhar individual e só uma avaliação clínica pode indicar esta necessidade antes do bebé completar 6 meses de idade. Ou seja, na maioria dos casos, para bebés com menos de 6 meses as papas a ‘verde claro’, sem fortificação, também estariam bem. Ainda assim há que confirmar com o médico assistente e com o nutricionista.

Uma nota importante: Não temos garantia que as papas sem glúten não contenham vestígios de glúten e, se temos alergia/intolerância ou suspeita das mesmas, há que confirmar com a marca. A papa Nestlé Sinlac é isenta de glúten e proteína do leite de vaca e pode ser uma opção segura nestes casos. Apresenta valores superiores de açúcar e gordura e por isso sugiro que apenas se dê preferência a esta papa, nesses casos.

Disclaimer: não pretendo publicitar qualquer uma das opções e este conteúdo não pretende favorecer qualquer marcar em detrimento de outra. A intenção é esclarecer os pais quanto às melhores escolhas para o bebé.
 
 

Lisa Afonso
Nutricionista Infantil | Investigadora Doutorada na área do Comportamento Alimentar Infantil

Curso de Diversificação Alimentar & Consulta de Nutrição